
Andrade, disse que está lutando para que o Governo do Estado tombe a vila e proíba a destruição e modernização das casas centenárias. “Tem morador da vila que vende as casas por muito pouco, porque desconhecem o valor histórico que elas possuem. Todos os anos, duas ou três casas são destruídas e, se não tombar logo, a vila vai perder toda a sua característica”, afirmou preocupado.
A Igreja Matriz
Construída em 1703, a Igreja de Jesus, Maria e José, padroeiros da Vila Limoeiro, tem paredes com 70 cm de espessura. “Na época não existia cimento, os escravos carregavam as pedras e a construção foi erguida com barro grosso e cabaú, o mel retirado da cana-de-açúcar”, conta Chico.
Segundo o historiador, as imagens originais dos santos foram roubadas, mas a igreja ainda preserva a sua aparência de séculos atrás.
A passagem do Imperador
Chico Marceneiro conta em detalhes como foi a passagem do Imperador Dom Pedro II pelo Rio São Francisco, às margens da Vila Limoeiro. “Há 150 anos o imperador passou por aqui em seu navio Pirajá. Dom Pedro usava um relógio de bolso, com algarismos romanos, fabricado em Genebra, na Suíça, em 1844. A marca era Estrada de Ferro.
Segundo Chico, o comandante do navio de Dom Pedro era o Almirante Tamandaré, Joaquim Marques Lisboa, patrono da Marinha Brasileira. “Eles passaram aqui pela vila e seguiram para Pão de Açúcar, que já era emancipada há cerca de cinco anos. Lá o imperador pernoitou e no dia seguinte teria seguido para Piranhas”.
Durante a reportagem, a equipe do Primeira Edição encontrou na Vila Limoeiro alguns moradores mais antigos, com histórias no mínimo, curiosas. Dona Maria Bezerra Lima, de 92 anos, disse que dançou em um baile com Lampião, famoso cangaceiro do Sertão nordestino. “Ele chegou na festa com o bando dele e me chamou para dançar. Isso aconteceu em 1936, na época eu já estava noiva e meu noivo quase rompeu comigo. Mas, Lampião era temido e as moças tinham que dançar com ele até amanhecer o dia”, lembra a senhora.
Dona Maria Bezerra é uma das mais antigas moradoras da Vila e ainda muito lúcida, também se preocupa em preservar o patrimônio histórico. “As pessoas precisam parar de derrubar as casas antigas para fazer casas novas. A Vila precisa ser preservada para que outras gerações também possam conhecer a história e ver como eram as casas de antigamente”, indagou.
Em Limoeiro, a equipe de reportagem do Primeira Edição também encontrou Ana Dayse Souza Ramos, de 53 anos. Ela é filha do policial Anisete Rodrigues da Silva, que era o comandante da volante que matou Lampião no dia 28 de junho de 1938. A mulher não chegou a conhecer seu pai, que foi assassinado quando ela ainda era um bebê.
“Depois do assassinato de Lampião e seu bando, Anisete ‘virou’ delegado de Pão de Açúcar, e foi quando eu o conheci e nós namoramos. Desse namoro nasceu nossa filha. Mas, na época ele enfrentou o coronel da cidade, Elísio Maia, e acabou sendo metralhado em uma emboscada. Infelizmente minha filha não pode conhecer o pai”, contou Georgina Souza, de 75 anos.
A filha do policial militar decidiu ir conhecer seus irmãos, os dois filhos que Anisete tinha com a esposa legítima, e descobriu que a família vivia bem. “Tenho certeza de que se meu pai fosse vivo, eu teria tido uma vida melhor. Minha mãe me criou com muita simplicidade e não soube exigir meus direitos, mas Deus sabe o que faz”, disse Dayse.
E assim, tendo ido conhecer e falar sobre a vila mais antiga do país, encontramos personagens que vivenciaram momentos marcantes da história do Brasil. É a História viva, podendo ser contada por quem estava presente ou ouviu de seus antepassados o que se passou há dezenas de anos atrás.
Thayanne Magalhães (fotos e texto)