quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Onde vive essa tal "estabilidade"?

Eu ouço as pessoas falando que estão esperando a "estabilidade" para casar, para ter filho, para viajar e conhecer o lugar que mais querem na vida, para comprar uma casa, para ter um cachorro, para ter um jipe, para ter outro filho, para viajar para mais longe e passar mais dias dessa vez. Eu também pensava assim. Eu também já me culpei por ter dado um passo adiante antes da tal "estabilidade" chegar. E o tempo foi passando e eu descobri que ela estava aqui desde que te conheci... A estabilidade da minha alma. Eu casaria de novo num estilo ainda mais underground e rock and roll, mesmo se meu salario fosse cinco vezes maior. Eu tentaria engravidar de novo do nosso primeiro filho, mesmo se o meu salário fosse cinco vezes menor. Eu iria outras dez vezes pro Ceará apenas com as passagens de ônibus e mais cem reais para passar quatro dias de um feriadão derretendo de tanto fazer amor. Eu moraria onde fosse ao seu lado. Passaria férias bem aqui na Garça Torta, se o dinheiro ainda não dá para ir até Noronha. Mas não, eu não esperaria essa"estabilidade" que todo mundo espera. Minha alma estabilizou. Eu te amo cada vez mais! 

segunda-feira, 16 de março de 2015

'Minha vida por outras quinhentas vidas'

No início da década de 80 um grupo de estudantes do curso de Oceanografia do Rio Grande do Sul se interessou em se aprofundar na pesquisa sobre o peixe-boi marinho e a desova de tartarugas marinhas no litoral do Brasil.
Naquela região não havia o registro de ocorrências do mamífero aquático e nem se viam tartarugas desovando naquelas praias. Imaginava-se então que aquelas espécies já não existiam mais em nossos mares.
Até que durante uma excursão pelo Nordeste aquele mesmo grupo de estudantes descobriu que o peixe-boi continuava vivo e que as tartarugas marinhas se reproduziam, dando continuidade à existência da sua espécie naquelas praias onde o verão prevalecia na maior parte do ano.
Animados com a descoberta, os jovens gaúchos passaram a pesquisar mais sobre o peixe-boi marinho, pois a espécie já não aparecia nas praias da Bahia desde os anos 60 e também desapareceu do litoral de Sergipe no ano de 1985, quando um último indivíduo foi caçado naquele estado.
“Nosso país é o único do mundo que registra a ocorrência de duas espécies de peixe-boi: o marinho e o da Amazônia. Quando descobrimos que esses animais ainda existiam entre o Nordeste e o Norte do Brasil, passamos a monitorar e a resgatar os filhotes que encalhavam”, conta a pioneira do projeto Peixe-Boi, Eunice Maria Oliveira, que fazia parte daquele grupo de estudantes que veio do Sul para “salvar” o peixe-boi marinho no Nordeste.
O grupo contabilizou a existência de apenas 500 indivíduos através de pesquisa de campo. Os jovens estudantes visitaram diversas praias, realizaram campanhas contra a matança do peixe-boi marinho, conversaram com os pescadores mais antigos e colheram informações importantes sobre a espécie com seus próprios caçadores, que sabiam sobre o comportamento do animal e assim, ajudavam a encontrá-lo na natureza.
Dali em diante se deu início ao trabalho de preservação do peixe-boi marinho. As comunidades ribeirinhas se tornaram aliadas depois de receber orientações sobre a importância da preservação do animal e também dos manguezais, ambiente onde várias espécies se reproduzem, inclusive o peixe-boi.
“Contratamos pessoas das comunidades para observar os animais e nos levar aos locais de ocorrências. Aprendemos a perceber qual a melhor maré para avistá-los, tudo ensinado pelos próprios pescadores”, conta Eunice.
Trinta e cinco anos depois, o jornal Tribuna Independente acompanhou a soltura de uma fêmea de peixe-boi marinho no dia 5 de março de 2015, na base do Centro de Mamíferos Aquáticos Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (CMA/ICMBio), localizadas em Porto de Pedras, no litoral norte de Alagoas.
É o 40º animal a ser solto em Alagoas e toda a história desde o resgate até o momento da soltura envolve a vida de muitas pessoas que deixaram sua cidade natal, sua família, o conforto da modernidade, para se dedicar à preservação desses 500 indivíduos ainda resistentes à interferência do homem, à poluição dos rios, ao desmatamento dos manguezais, aos grandes empreendimentos construídos em áreas de preservação e, principalmente, à ignorância dos que ainda têm a capacidade de tirar a vida de um indivíduo dócil por pura maldade.
Pioneira se emociona com dedicação de seus sucessores
Chegou a hora de Natália voltar para o seu habitat natural. A decisão da equipe formada por profissionais veterinários, biólogos, zootecnistas e tratadores foi tomada depois de terem cuidado do animal no recinto de Porto de Pedras durante 9 meses.
Homenageada durante a soltura, a pioneira no projeto Eunice Maria - que hoje é servidora da Unidade Avançada de Administração e Finanças (UAAF) do ICMBio, em Arembepe na Bahia - conta que desde os primeiros resgates, a equipe tentava devolver o filhote para a mãe.
“Desde os primeiros encalhes que a nossa prioridade sempre foi tentar devolver o filhote para a mãe, mas na maioria das vezes não conseguimos, então levamos para o cativeiro, para que o animal passe por uma reabilitação até estar pronto para ser solto na natureza”, explica.
Nice, como é chamada pelos colegas de trabalho, acompanhava a soltura do 40º animal reabilitado no recinto alagoano. Ela foi escolhida para ser a madrinha de Natália.
“Quando a gente começou o trabalho, ninguém ouvia falar no peixe-boi. Se nós não tivéssemos começado o projeto talvez hoje não existisse nenhum indivíduo desses na natureza. Estou muito feliz por estar participando desse momento”.
Emocionada ao ser homenageada durante a soltura de Natália, Eunice se disse realizada por ver que os novos profissionais cuidam do peixe-boi com a mesma dedicação da primeira equipe, a que iniciou o projeto e que ela fazia parte.
“É gratificante ver como a equipe trabalha com o mesmo amor que nós tínhamos no início. Como eles estão fazendo bem esse trabalho de conscientização e envolvendo a comunidade! Me admiro por ver como esses meninos hoje conhecem o peixe-boi mais do que eu”, relata Eunice.
NATÁLIA
Natália foi resgatada na Praia de Retiro Grande, na cidade de Icapuí, no Ceará ainda filhote. Era dia de Natal, 25 de dezembro de 2011. Daí o nome escolhido para batizar o animal.
A fêmea de peixe-boi foi levada do Ceará para o cativeiro localizado em Itamaracá, Pernambuco. Lá o animal foi alimentado com mamadeiras e recebeu tratamento veterinário. Então, quando atendeu aos critérios determinados pela equipe responsável pela saúde do bicho, foi levado para o recinto em Alagoas para que fosse iniciado o processo de reintrodução.
Aos três anos e 10 meses, medindo cerca de 2,5 metros e com peso estimado em 300 quilos, Natália ganhou a liberdade no dia 5 de março de 2015, depois do processo de readaptação ao seu ambiente natural e aprendendo a se alimentar sozinha. O alimento principal da sua dieta é o capim agulha, encontrado em rios e mares.
A equipe entende que o animal está pronto para ser solto quando está saudável, com um bom peso e tamanho.
Mas o trabalho dos profissionais envolvidos na preservação do animal não acaba com a soltura. Agora Natália está sendo monitorada - de forma mais intensiva nos próximos três meses - através de sinais de satélite enviados de um transmissor colocado em um cinto preso na sua cauda. As informações chegam até os profissionais do Projeto Peixe-Boi pela internet e esse acompanhamento deve durar por um ano, período onde o risco de encalhe ainda existe e o animal pode ainda encontrar dificuldades para se alimentar e encontrar água doce, podendo se desidratar.
Cada peixe-boi solto pelo Projeto também recebe um chip com um código de barras, podendo ser identificado mesmo depois que o transmissor parar de enviar mensagens por satélite.
O trabalho conta ainda com a participação da comunidade e principalmente dos pescadores, que avisam sobre avistamentos do animal e assim, a equipe que trabalha com a preservação da espécie consegue acompanhar o seu desenvolvimento na natureza.
‘É um projeto de vida e não um trabalho’
Iran Normande faz parte do Projeto Peixe-Boi desde o ano de 2006. O analista ambiental mudou de Maceió para Porto de Pedras no ano de 2010, quando passou a viver mais perto dos animais e a se dedicar ainda mais ao trabalho de conservação da espécie.
“Não foi nenhum sacrifício, afinal, eu moro em um lugar lindo. É um projeto de vida e não um trabalho. Nossa vida se converte a isso, a salvar o peixe-boi. Passamos muito tempo longe da família e acabamos construindo uma nova família aqui, um novo ciclo de amizades. Eu não me arrependo. Eventos como o da soltura de Natália fazem a decisão de mudar de vida valer a pena”.
A veterinária Fernanda Niemeyer Attademo é parceira do Projeto desde 2003. Ela conta que já viu mais de 50 peixes-boi serem resgatados e em torno de 30 serem devolvidos ao seu habitat natural depois de passar pela reabilitação em recinto.
“Quando eles são devolvidos à natureza eu sinto o mesmo que uma mãe sente ao ver seu filho se formar na universidade e conseguir seu primeiro emprego. É muito boa a sensação de ter contribuído para a conservação e o futuro da espécie”, descreve.
Fernanda conta ainda que deixou toda a família e os amigos de infância no Rio de Janeiro para se dedicar aos “gorduchos”, como ela costuma chamar os peixes-boi.
“As relações acabam ficando em segundo plano, pois como veterinária estou sempre priorizando a saúde dos bichos e isso faz com que alguns momentos pessoais sejam perdidos. Mas com certeza tudo isso vale a pena. Nada é mais gratificante do que ver os animais saudáveis e repovoando a natureza graças ao empenho da nossa equipe”.
A coordenadora do CMA, Fábia Luna, destaca a importância do Projeto para a sobrevivência da espécie.
“Se não houvesse a atuação do Projeto, muitos filhotes teriam morrido encalhados. Uma das atividades de maior importância é o resgate e a devolução desses animais ao seu habitat natural. Cada vez que um animal desses é devolvido à natureza, tenho a sensação de dever cumprido. Sinto uma grande satisfação em ver o animal seguir seu caminho, livre”.
Fábia está no projeto há 17 anos e já acompanhou o tratamento e a soltura de mais de 50 peixes-boi.
“Eu deixei minha cidade natal e meus amigos para abraçar o Projeto. A família a gente sempre leva com a gente, apesar de deixá-los saudosos por não estarmos presentes fisicamente em momentos importantes. Para mim a escolha valeu pena. Ver a espécie se recuperando e contribuir para a conservação dos gorduchos vale sim a pena”.
A importância da educação integrada ao Projeto Peixe-Boi
José Ulisses Santos era diretor de uma escola em Maceió e planejava fazer mestrado. Foi quando o então educador resolveu concorrer a uma vaga no concurso do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
“Quando passei no concurso para atuar como analista ambiental, eu pensava no retorno financeiro, que seria bom. Então meu objetivo de continuar atuando como professor mudou e em 2007 eu entrei para o Projeto Peixe-Boi. Eu era o único da equipe com formação na área de educação e tinha dúvidas sobre como seria a minha atuação”, conta.
Foi quando Ulisses viu nas comunidades carentes a chance de unir seu papel de educador ao trabalho de preservação do mamífero aquático.
“Eu iniciei um trabalho de conscientização nas comunidades carentes. Foi a forma que encontrei para contribuir com o projeto, com a preservação ambiental e descobri que trabalhar com isso vai muito além do trabalho do veterinário e do biólogo. É muito mais amplo do que se imagina. É preciso envolver as pessoas, manter um diálogo com a comunidade, com as lideranças políticas, porque o projeto impõe regras por sua visão mais técnica e isso pode incomodar”.
Ulisses sempre convida os estudantes de escolas públicas de Porto de Pedras para participar dos eventos relacionados ao Projeto Peixe-Boi. Na soltura de Natália, várias crianças puderam participar e acompanhar o trabalho da equipe que tratou e libertou a fêmea.
“É preciso envolver essas crianças para que haja um processo de sensibilização e de envolvimento delas e de toda a comunidade. Elas entendem desde cedo a importância da preservação da espécie, entendem que é um animal dócil e que precisamos da participação delas para ajudar a salvar a espécie”.
O analista conta que o Projeto Peixe-Boi conta com parcerias para realizar a capacitação de professores que passam a atuar também com educação ambiental dentro da sala de aula.
“Já foram capacitados 40 professores em Porto de Pedras e 30 em São Miguel dos Milagres. As crianças que moram na zona rural estudam de perto sobre a importância do manguezal e todo esse trabalho tem dado resultado. É um envolvimento muito grande”.
José Ulisses explica que existe uma diferença entre o trabalho com as crianças e o trabalho com os adultos.
“Trabalhar com as crianças é um trabalho a longo prazo. Elas vão crescer conscientes. Já o trabalho com os adultos tem que ser realizado por meio de trocas. Orientamos os pescadores sobre a importância de conservar os corais e que isso irá atrair mais turistas, trazendo renda para a comunidade. Também sobre a preservação dos mangues, berçário de muitas espécies como o caranguejo e o camarão, importantes fontes de renda dos moradores da região”, explica.
Antes do Projeto chegar à região existia um conflito muito grande entre os pescadores e o peixe-boi.
“Porque os animais acabavam destruindo o material de trabalho deles, rasgando as redes, e por isso aconteciam muitos registros de agressões contra o bicho. A solução encontrada pela equipe do projeto foi negociar com os pescadores. Quando um peixe-boi rasgar uma rede de pesca ou danificar qualquer material de trabalho, eles acionam a nossa equipe, que registra a ocorrência e realiza o ressarcimento do material danificado. Isso acontece hoje depois de muito trabalho de informação nas colônias de pescadores”.
Para Ulisses, o trabalho de diálogo tem dado resultado mas, mesmo com todo esforço da equipe do Projeto Peixe-Boi, ainda existem conflitos entre pescadores e o mamífero aquático em municípios onde o Projeto ainda não realiza um trabalho tão intensivo.
‘Animais estão seguros na natureza’
O analista ambiental José Ulisses lembra que nas primeiras solturas de peixes-boi em que esteve presente, se sentiu preocupado com o que os animais iriam encontrar estando em liberdade.
Ele imaginava que os bichos poderiam ser agredidos pelos pescadores ou se ferirem ao se aproximarem de embarcações motorizadas, por exemplo.
Mas depois dos anos em que aliou sua experiência de professor com o trabalho de conscientização da comunidade, ele diz que pôde contar com a ajuda das crianças, dos moradores, dos turistas e dos pescadores para preservar o peixe-boi na natureza.
“Antes eu ficava tenso, preocupado com os problemas que os peixes-boi iriam encontrar lá fora. A gente se apega ao bicho e acaba criando um vínculo. Eu ficava pensando no perigo que eles corriam de encontrar com pescadores desinformados, o contato direto com a comunidade, com os turistas, o perigo de se deparar com embarcações motorizadas, com a prática de esportes náuticos e todas essas atividades humanas que nos enchem de preocupação”, conta Ulisses.
“Mas hoje eu me sinto mais tranquilo e feliz por saber que eles estão livres e seguros. O nosso trabalho de orientação tem dado resultado e contamos com muitos parceiros e informantes, pessoas que protegem o animal e que nos deixam muito felizes por participarem conosco do trabalho de preservação da espécie”.
Pescadores: Do conflito ao trabalho de preservação
José Ismar Lima de Carvalho começou a pescar aos 12 anos de idade, lá em meados de 1999 e 2000. Ele conta que já chegou a agredir um peixe-boi depois que o animal estragou sua rede de pesca, mas que hoje entende a importância da espécie.
“Eu participei de várias palestras e então passei a entender a importância do peixe-boi na natureza. Hoje, se o Projeto precisar, eu trabalho como voluntário para ajudar a preservar o animal”.
O pescador é vice-presidente da Associação Peixe-Boi, formada por pescadores da região que hoje ganham a vida realizando passeios de jangada para mostrar o animal e falar da importância da sua preservação para os visitantes.
“Eu troquei a pesca pelo passeio de jangada em 2008. Cerca de 50 famílias ganham a vida com os passeios e com o artesanato feito geralmente pelas mulheres dos pescadores. Hoje eu vivo para passar para os turistas a importância da preservação do peixe-boi. Falo do comportamento dócil e do quanto é importante não se aproximar e nem alimentar o animal. Apenas observar e fotografar, caso contrário ele pode ficar dependente do homem e estar sempre se aproximando da orla, podendo encalhar. Além do mais, o bicho é inocente e pode acabar tentando se aproximar de pessoas ruins, que podem machucá-lo”.
Para José Ismar toda a comunidade de Tatuamunha – onde está localizado o recinto do Projeto Peixe-Boi em Porto de Pedras – está totalmente consciente em relação à preservação do animal.
“Os pescadores trabalham em conjunto com o Projeto. Eles avisam onde avistam os animais e entenderam que aquele território é do bicho e que não devem machucá-lo. Todos temos consciência de que a população de peixe-boi é pequena e que precisamos preservar o animal”.
REGRAS
José Ismar explica que existem regras estabelecidas pelo ICMBio e Ministérios Público Estadual e Federal em relação aos passeios realizados pela Associação Peixe-Boi.
“Desde o ano de 2008 que foram criadas regras para a prática dos passeios de jangada no Rio Tatuamunha, onde vivem alguns peixes-boi que foram reintroduzidos na natureza. Como haviam conflitos entre os pescadores que praticavam a atividade, os órgãos competentes definiram que 20 guias seriam capacitados para realizar os passeios, num rodízio de 10 em 10 por horário”, explica.
O pescador conta ainda que somente 70 pessoas podem realizar o passeio por dia entre as 10h e as 17h, pontualmente.
“Desde 2009 que começamos a construir nossa própria sede e hoje temos guias credenciados e seguindo todas as regras estabelecidas. Entre os profissionais que atuam na Associação estão os guias e os remadores. Os sócios pagam uma taxa de 35 reais por mês e são convidados a atuar com a produção de artesanatos como as pelúcias dos peixes-boi, sabonetes, camisas e bolsas. A Associação é a fonte de renda de muitas famílias”.
‘O Peixe-Boi trouxe prosperidade para a comunidade’
O guia turístico e artesão José Cláudio deixou a criação de porcos para se dedicar ao trabalho de conscientização voltado ao peixe-boi marinho.
“Eu moro em Porto de Pedras há 26 anos e desde que comecei a trabalhar como guia que levo as pessoas para conhecerem o Projeto Peixe-Boi. A maioria dos turistas que vêm para a cidade pergunta pelo bicho”, relata.
Para José Cláudio, o peixe-boi fez com que outros atrativos da cidade também ganhassem mais destaque.
“As pessoas que vêm para a cidade conhecer o animal também acabam levando com elas a história da cidade e visitam nossas praias, piscinas naturais e restaurantes. O Projeto tem ajudado muito na economia local”.
José Ismar, vice-presidente da Associação Peixe-Boi, lembra que antes da chegada do Projeto Peixe-Boi na região, a cidade de Porto de Pedras tinha como fonte de renda apenas a pesca, o coco e a cana-de-açúcar.
“Com a chegada do peixe-boi na região muitos empresários passaram a investir em pousadas, hotéis e passeios de jangada. Todo esse crescimento de Porto de Pedras e das cidades vizinhas vem do Projeto, desse processo de conscientização para a preservação da espécie, que atraiu mais turistas e pesquisadores. Agora somos conhecidos em todo o mundo como a cidade que tem a quinta praia mais bonita do Brasil, a Praia do Patacho. Talvez a cidade não fosse tão divulgada sem a chegada do Aldo, o primeiro peixe-boi a viver no cativeiro de Tatuamunha”.
Astro e Lua foram os primeiros animais reabilitados pelo Projeto Peixe-Boi em Alagoas
O Projeto Peixe-Boi Marinho em Alagoas reintroduziu os primeiros animais de volta à natureza em 12 de outubro de 1994. O “casal” Astro e Lua ganhou a liberdade nas águas do mar de Paripueira e começava ali a história de luta pela conservação de uma das espécies mais ameaçadas de extinção no Brasil. Durante os mais de 20 anos de existência em nosso estado, a equipe do Programa de Manejo – desenvolvido pelo Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Aquáticos (CMA), órgão ligado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) – tem se engajado e alcançado grandes resultados com o trabalho de reabilitação, devolvendo os animais ao seu ambiente natural e recolonizando as áreas já ocupadas pela espécie no passado.
Texto: Thayanne Magalhães
Fotos: Sandro Lima

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Salvem nossos cardiopatas!

Hoje decidi duas das várias reportagens que venho escrevendo desde o ano passado em relação ao "não" serviço de cardiopediatria na rede pública e privada de Saúde em Alagoas.

O menino das postagens abaixo, o Juliano conseguiu a transferência para um hospital especializado fora do estado depois de muita luta e intervenção da Justiça, mas, como a espera foi muito grande, ele não resistiu à doença.

De boa vontade, o poder público não consegue uma transferência, nem nos casos mais urgentes. É sempre uma luta da Defensoria Pública e entidades sociais que se engajam em socorrer essas crianças.

Estamos em fevereiro de 2015 e novos casos surgiram, o problema tem sido mais divulgado, mas Estado e Município de Maceió continuam descumprindo a ordem judicial de disponibilizar pelo menos uma equipe médica especializada para cuidar dessas crianças ou criar um convênio com um hospital mais próximo, em Recife, por exemplo, onde haja tratamento

Quantos outros bebês perderão a chance de viver por conta da falta de tratamento especializado? Quantas mães irão perder seus filhos? Meu Deus, que dor terrível deve ser a de ver seu filho indo embora e não poder fazer nada. Que impotência! Que sofrimento sem fim!

E diante de todo esse cenário dramático, eis que a indiferença dos governantes com a VIDA HUMANA impera. Com a vida dos filhos dos outros, porque os deles têm condições de se tratar nos melhores hospitais fora do estado ou até fora do país.

Chega de indiferença! Chega de desordem! Se a Justiça não tem a última palavra, quem terá? Salvem nossas crianças cardiopatas!



Falta de cardiopediatra na rede pública descumpre ordem judicial de 2012

Autor da Ação Civil Pública, o defensor público Ricardo Melro, critica a falta de pulso do judiciário alagoano

A falta de tratamento para os recém-nascidos cardiopatas na rede pública de saúde em Alagoas descumpre decisão da Ação Civil Pública de autoria do defensor público e coordenador do Núcleo de Direitos Humanos, Difusos e Coletivos da Defensoria Pública, Ricardo Melro. “Desde fevereiro de 2012 que o Estado e o Município estão descumprindo a ordem. A partir do dia 17 daquele mês, foram dados 90 dias para que houvesse serviço de cardiopediatria em toda a rede pública de saúde e cinco dias para a transferência dos pacientes que já aguardavam tratamento, para local especializado fora do estado”, explicou o defensor.

Ricardo Melro critica o judiciário Alagoano e cobra medidas mais enérgicas para que as ordens judiciais sejam cumpridas pelos governantes. “O judiciário é a autoridade maior, e quando perde essa autoridade, ele deixa de dar ordens para dar apenas conselhos. Estado e Município estão descumprindo uma ordem judicial e isso é desmoralizar a autoridade do juiz. Já encaminhei solicitações exigindo providências, mas, as crianças continuam morrendo por falta de atendimento”.

O defensor se disse indignado ao saber através da imprensa do caso de Juliano dos Santos, de apenas dois meses, que espera por uma cirurgia enquanto fica internado na Unidade de Cuidados Intermediários (UCI) do Hospital Universitário (HU), em Maceió. “Pela ordem judicial, que vem sendo descumprida desde 2012, Juliano já deveria ter sido transferido para um hospital especializado fora do estado. Mas a Ação vai além, ela ultrapassa o interesse individual e atinge toda a sociedade, por isso que o serviço de cardiopediatria deve ser instalado em Alagoas e, enquanto não ocorre, o Estado e o Município devem encaminhar os pacientes para outros locais onde possam tratar dos seus problemas de saúde”, explicou.

Juliano sofre de Sopro Cardíaco e se alimenta por uma sonda. Enquanto estado e Município não cumprem a ordem da Justiça, uma corrente foi criada em uma rede social para que o menino consiga a cirurgia e sobreviva ao problema de saúde. “Passo os dias no hospital, pedindo a Deus que salve meu filho”, desabafa a mãe do menino, Alessandra Maria dos Santos, de 26 anos, moradora da zona rural de União dos Palmares.

O caso foi encaminhado para a 28ª Vara da Infância e Juventude, depois de passar pelo Ministério Público do Estado (MPE) e Defensoria Pública. O juiz responsável, Ney Alcântara, ainda analisa o caso e disse que deve determinar o bloqueio da conta única do Estado caso seja constatada a urgência da cirurgia de Juliano. “Também vou analisar a Ação do defensor Ricardo Nelro e tomar medidas para que as ordens judicias sejam cumpridas e os pacientes tenham o atendimento necessário na rede pública de saúde”.

Somente no ano passado, oito recém-nascidos com problemas no coração morreram por falta de tratamento adequado na rede pública de saúde em Alagoas.

“Nosso maior medo é que Juliano receba alta do hospital sem conseguir a cirurgia. Se já é difícil para a gente conseguir ajudar, indo atrás das autoridades, imagine para a mãe, que mora na zona rural e não tem nem um celular”, disse a pediatra Fabiana Bastos, que cuida de Juliano.

A médica esteve no MPE e foi orientada a procurar a Defensoria Pública. “O MP encaminhou Juliano para o único cardiologista pediátrico do Estado, o doutor Alfredo Rosa, e ele achou melhor encaminhar o bebê para o TDF (Tratamento Fora de Domicílio) já que em Alagoas não existe tratamento para o recém-nascido”.

O cardiologista pediátrico, Alfredo Alcântara, explicou que deu seu parecer no dia 22 de maio de 2014, quando Juliano tinha 19 dias de nascido, e que hoje não pode dizer qual o estado de saúde do bebê. “O caso não era dos mais graves e se ele está internado com estado de saúde estável, isso é bom, porque está crescendo e tendo melhores condições para ser operado”, explicou o médico.

Enquanto Juliano aguarda pelo seu tratamento em local especializado, o jornal Tribuna Independente continuará acompanhando o caso e cobrando dos órgãos responsáveis a transferência do recém-nascido para um hospital com equipe médica que possa salvar sua vida. E pensemos: o que é prioridade para os governantes se na Saúde, Educação e Segurança, Alagoas sempre aparece com os piores índices?

Ney Alcantara: despachei uma ação questão de uma cirurgia

Do Ministério Público Estadual (MPE), para a Defensoria Pública. Da Defensoria Pública, o caso do pequeno Juliano, de apenas dois meses, agora está nas mãos do juiz Ney Alcântara da 28ª Vara da Infância e Juventude. O bebê sobre de Sopro Cardíaco e precisa de uma cirurgia para sobreviver, mas o tratamento não pode ser feito na rede pública de saúde de Alagoas. “Amanhã de manhã estudarei a documentação e, caso seja constatada a urgência, determinarei pelo bloqueio da conta única do Estado até que o paciente seja transferido para um hospital especializado e a cirurgia seja realizado”, afirmou Ney Alcântara.

O juiz explicou que em casos como o de Juliano, se o Estado não age espontaneamente, a Justiça determina que as contas sejam bloqueadas até que os custos para o tratamento sejam garantidos. 

Thayanne Magalhães para Tribuna Independente em Julho de 2014

Criança com cardiopatia em Alagoas está fadada a morrer

Afirmação é de médica visitadora da Unidade Neonatal do Hospital Universitário (HU); só no em 2013 foram registrados oito óbitos

Em pauta a obrigatoriedade do Teste do Coraçãozinho nos hospitais públicos de todo o país, determinada pelo Ministério da Saúde e publicada no Diário Oficial da União desde junho passado. Mas, o que a equipe de reportagem do jornal Tribuna Independente descobriu vai além da falta de médicos capacitados e equipamentos para a realização do teste nas maternidades públicas de Alagoas. “A criança com cardiopatia em Alagoas está fadada a morrer. Se não houver uma intervenção do Ministério Público para ‘obrigar’ que o recém-nascido seja tratado em algum hospital particular, ele certamente vai morrer na fila de espera. Somente no ano passado, foram registrados oito óbitos de crianças diagnosticadas com problemas cardíacos”, afirma a médica visitadora da Unidade Neonatal do Hospital Universitário (HU), Ana Maria.

A pediatra afirma ainda que o problema não está somente em Alagoas. Segundo Ana Maria, crianças de todo o país aguardam Tratamento Fora do Domicílio (TFD), mas a falta de leitos para a realização das cirurgias ou transplantes culmina na morte de muitos pacientes.

O HU deve realizar concurso público no próximo semestre e, de acordo com a médica, haverá uma vaga para cardiologista infantil. “A questão não é a realização do teste do coraçãozinho. Alguns hospitais públicos têm o equipamento necessário. O problema é que, se for detectado algum problema cardiológico no recém-nascido, ele não terá como passar pelo ecocardiograma, porque não existe o equipamento para a realização desse exame em bebês em todos os hospitais”, explicou.

Em contato com o cardiologista Wanderley Neto, descobrimos que a situação é ainda pior do que se imaginava. “Os hospitais não querem investir em cardiologia pediátrica. Não temos profissionais capacitados, nem estrutura para atender pacientes na área. As crianças e os idosos são quem mais sofrem com essa situação”, afirmou o médico.

“O Ministério da Saúde diz que se não houver atendimento onde estiver o paciente, que ele seja encaminhado para outro hospital. Mas a fila é muito grande. Não temos leitos, enfermarias e nem UTIs pediátricas para atender a demanda de pacientes”, concluiu o médico.

Para o doutor Ricardo César Cavalcanti, diretor médico do Hospital do Coração, a obrigatoriedade do Coraçãozinho pode contribuir consideravelmente para a redução da taxa de mortalidade neonatal. De acordo com dados da Sociedade Brasileira de Pediatria, entre 30% e 40% dos bebês que têm problemas cardíacos graves, recebem alta das maternidades sem o diagnóstico. Uma em cada mil crianças sofre de cardiopatia congênita crítica, problema que responde por cerca de 10% dos óbitos infantis e de 20% a 40% dos óbitos decorrentes de malformações.

“O procedimento é simples, rápido e indolor, mas, por ser ainda uma tecnologia nova, leva um tempo até que os profissionais absorvam e incorporem à rotina. É preciso que a sociedade tome conhecimento do exame para que as pacientes cobrem dos seus médicos a realização do teste em seus bebês ainda na sala de parto”, afirmou o cardiologista.

De acordo com a assessoria de comunicação da Secretaria de Estado da Saúde (Sesau), “os técnicos da saúde ainda vão passar por capacitação e os hospitais ainda irão receber os equipamentos necessários para a realização do exame”. Já a assessoria de comunicação da Maternidade Escola Santa Mônica, informou que o equipamento existe em algumas maternidades públicas, porém, a prática não é tão comum. “Os recém-nascidos podem realizar esse exame ainda no leito, junto da mãe. Esse teste pode identificar problemas cardíacos que podem vir à tona ainda no primeiro mês de nascimento, no entanto, não existe equipamento suficiente para todas as unidades públicas de saúde. Apesar da obrigatoriedade do Ministério da Saúde, é preciso analisar a estrutura e as condições dos hospitais públicos, e isso pode levar um tempo”, explicou a assessoria.

Ainda não há previsão de quando o teste se tornará obrigatório nas maternidades públicas de Alagoas.

“Já estivemos reunidos com a Sesau e o Estado já começou a se articular junto com o Município para que o exame comece a ser realizado nas maternidades públicas”, informou a coordenadora do Programa da Saúde da Criança da Capital, Alda Tenório. Segundo ela, independente de ser particular ou público, os hospitais serão cobrados para que se comece a ser feito o teste em todos os recém-nascidos o quanto antes.

“A portaria do Ministério da Saúde chega até nós e nós encaminhamos para todas as maternidades, independente de serem públicas ou particulares”, explicou.

Ainda de acordo com as informações de Alda, todos os médicos deverão passar por capacitação e todas as maternidades públicas devem receber os equipamentos necessários para a realização do teste. “Não deve demorar. Em pouco tempo o teste já estará sendo realizado em toda a rede pública e, as maternidades que já possuem os equipamentos, já devem realizar o exame em todos os recém-nascidos”, concluiu.

O que se espera, é que junto com o Teste do Coraçãozinho, as maternidades públicas tenham também estrutura para tratar dos recém-nascidos diagnosticados com problemas cardíacos. E que as mães dessas crianças não vivam a aflição de imaginar que seu filho está fadado à morte por nascer com alguma cardiopatia.

O que é o Teste do Coraçãozinho?

O exame de Oximetria de Pulso, mais conhecido como Teste do Pezinho, serve para detectar e prevenir problemas cardíacos em recém-nascidos, e consiste em medir a oxigenação do sangue e os batimentos cardíacos do bebê com o auxílio de um oxímetro – espécie de pulseirinha – instalado nos primeiros dias de nascimento no pulso e no pé.


Além do Teste do Coraçãozinho, outros dois exames fazem parte da triagem Neonatal, o da Orelhinha, que se tornou obrigatório em 2010 e deve ser feito prioritariamente durante o primeiro mês de nascimento. O teste do Pezinho, também obrigatório na rede pública, é um exame feito a partir de sangue coletado do calcanhar do bebê. O procedimento permite que se identifique doenças graves e deve ser feito a partir de 48 horas do nascimento até os 30 dias. Outro teste recomendado pelos pediatras é o Teste do Olhinho, que ainda não é obrigatório na rede pública de saúde. Ele deve ser realizado nas primeiras 24 horas de nascimento do bebê.

Thayanne Magalhães para Tribuna Independente em Julho de 2014.