"Obrigada por me deixar viver". Era só isso que eu gostaria de dizer à dupla de assaltantes que me aterrorizou nesta ultima sexta-feira 18. Até acontecer com a gente, os registros de assaltos, assassinatos, são apenas mais um noticiado pela imprensa, mas só até acontecer com a gente. Como jornalista, sempre procurei fazer minha parte, apelando em meus textos por mais segurança nesse nosso pequeno estado, que tem como titulo, o de mais violento do país.
É muito raro encontrar alguém em Maceió que nunca tenha sido vitima da violência, ou que não conheça alguém que já tenha sido assaltado, violentado, desrespeitado por algum marginal, bandido, criminoso, que por falta de oportunidade (essa desculpa é ótima para os vagabundos) ou pelo sangue frio, ou pelo fato de que roubar e matar tem sido algo cada vez mais banal, entram nesse mundo e tiram a paz das pessoas que lutam por uma vida melhor.
No meu caso, resumindo minhas lembranças relacionadas às violências que sofri, aí vai: quando tinha entre 8 e 10 anos, estava feliz com minha bicicleta nova, que ganhei de Natal. Estava pedalando de casa até a esquina, quando um ladrão me apontou uma arma e levou meu brinquedo, em um ponto de ônibus. Só pude chorar e passar semanas sentindo falta da minha tão esperada bicicleta.
Quando estagiava em um órgão publico no Centro da cidade, em 2008, eu acho, esperava para passar a rua e subir a ladeira da Catedral até a faculdade, quando uma dupla passou por mim e, um deles, andando feito um macaco balançando os braços, puxou minha corrente do pescoço e saiu andando na maior moral. Novamente chorei com o susto em seguida me veio o ódio pela ousadia e falta de respeito.
Até então eu criticava meus colegas nas redações onde passei, que comemoravam quando um ladrão era espancado ou morto. Eu acreditava que esse tipo de gente merecia uma segunda chance. Mas, depois de sentir na pele a frieza e cara de pau dessas criaturas, passei a não me importar mais com o que acontece com eles. Eu rezo, sou cristã e rezo, mas piedade, isso eu deixei de sentir.
Dentro do ser humano existem sentimentos que se provocados, podem fazer grandes estragos e eu não culpo um pai de família, um trabalhador que reage com fúria contra um ladrão.
E todo esse ponto de vista eu passei a ter por conta dessa experiência que não foi absolutamente nada diante do que me viria.
No mesmo ano, se não me engano, chegava em casa, quando morava no bairro da Gruta, por volta das 20 horas e um jovem, de calça jeans, tênis e mochila, aparentando ser um trabalhador, parou sua bicicleta na minha frente e pediu meu celular, relógio e dinheiro. Se eu falasse algo, ele me matava com a suposta arma que estava na mochila. “Que vida mais sem valor essa minha”, eu pensei.
Nessa ocasião eu fui fria, cheguei a pedir meu chip e desejei boa sorte para o criminoso. “Para você também”, respondeu o simpático ladrão. “Pois é, se eu tiver sorte não encontro mais com um da sua laia na minha frente”, eu quis dizer, mas poderia morrer pela ironia.
Em 2009, a maior sensação de injustiça, a dor inexplicável que só quem perde alguém para o crime pode sentir. Meu pai foi assassinado, cerca de um mês antes do meu aniversario. Sim, ele foi assassinado, sabe se lá porquê. Dizem que foi dívida de jogo ou assalto. Não sei até hoje o motivo pelo qual perdi meu pai. O crime aconteceu em Arapiraca onde ele morava com a segunda esposa e meu irmão e, apesar de não sermos grudados como na infância, ele continuava sendo meu pai. Ele não morreu, não. Mataram ele e a diferença entre morrer e ser morto é gigante. Não há explicação que conforme o coração de quem perdeu alguém dessa forma.
O que fica e uma sensação de injustiça, um eterno questionamento. “Por que temos que passar por isso? O que eu poderia ter feito para evitar? O que leva uma pessoa a tirar a vida de outra sem pensar no mal que fará aos seus familiares, filhos, mãe? Essas pessoas que cometem esses crimes têm mãe? Tem sentimento? Ou são meros seres humanos secos de qualquer tipo de remorso?”
No ano passado resolvi deixar de lado meu preconceito e fui curtir as festas juninas no Jaraguá (é que prefiro rock). Tinha polícia na entrada e dentro do evento, “que bom”, eu pensei. Mas, depois de me divertir com o meu então namorado e minha amiga, fomos andando junto com uma multidão até o Sesc Poço para pegar um ônibus e economizar. Antes tivesse gasto com táxi.
E lá no ponto, cheio de pessoas e sem nenhum policiamento (acho que todos estavam cuidando da festa da prefeitura em parceria com o governo), um grupo de maloqueiros nos rodeou e começou a violência. Arrancaram a minha bolsa de mão com o celular da minha amiga, deram um murro no meu namorado sem que ele tivesse reagido a nada e levaram o celular do bolso dele. Só não conseguiram levar o relógio porque tinha uma trava na fechadura e os imbecis não sabiam abrir.
Eu cheguei a reagir e empurrar um deles, o mesmo que agrediu meu namorado. Também fiquei dando umas tapas no “noiero” nojento que tentava roubar o relógio dele. “Ah não! O relógio não! Fui eu quem dei”. Pois é, perigosa minha atitude, mas foi instintiva, sem pensar.
Uma viatura veio uns dez minutos depois, mostramos por onde o bando, também formado por mulheres de shorts bem curto e barriga de fora (mesmo as gordas de barriga de fora), tinha corrido, mas era uma rua escura e os policiais, ou não entenderam, ou não quiseram arriscar entrar naquele lugar, e passaram direto. Não encontraram nenhum suspeito.
De novo a sensação horrível de se sentir injustiçado, de ver as suas coisas, que você comprou com seu trabalho, serem levadas por vagabundos sem medo, sem receio, pela certeza da impunidade. Estão acostumados com essa vida e sabem que dificilmente serão punidos. Não é a toa que tem tanta gente nesse “ramo” em Maceió e em todo o Estado.
E, finalmente chegando na sexta passada, depois de um dia de trabalho aqui na redação, saí um pouco mais tarde do meu horário e fui andando pelo caminho de sempre. Na minha frente, avistei uma moto com duas criaturas se aproximando e já imaginava o que me viria. Não pensei em nada, apenas assisti a cena como se soubesse exatamente o que iria acontecer.
Mas, quando eles pararam e um deles botou o pé no chão e exigiu minha bolsa, eu simplesmente corri como eu não imaginava que pudesse correr. Muito rápido. Deve ser o tal instinto de sobrevivência. Mas, ao ouvir um deles dizer “atira nela! Atira nela”, eu perdi os sentidos, perdi as forças nas pernas e caí no chão. Estava correndo tão rápido que a queda foi com impulso enorme e saí ralando cotovelo, barriga, joelhos na calçada... me machuquei toda e por alguns segundos esperei os tiros ali, caída, sem defesa, com minha bolsa que tinha apenas 20 reais, meus documentos, blocos de papel e canetas.
O tiro não veio (Graças a Deus! Graças a Deus)! e eu consegui levantar e correr até dobrar a esquina onde tinham pessoas. Entrei numa padaria para me acalmar e liguei para meus colegas de trabalho e amigos. Fui amparada e me deixaram em casa. Antes de ir para casa, uma viatura veio até o jornal e eu registrei um Boletim de Ocorrência (BO), mas, para quê mesmo?
Quantas duplas de motoqueiros estão a solta em Maceió roubando em casa esquina? Eu fui apenas mais uma vítima a reclamar aos policiais militares que escutam casos idênticos ao meu diariamente.
Será que por eu reclamar e está publicando tudo isso, haverá alguma melhoria na segurança pública? Terão mais viaturas circulando na cidade? Vai diminuir o número de assaltos, assassinatos, tráfico? Acho que não. Nossa Alagoas parece está cada vez mais distante de ser um bom lugar para se viver e eu as vezes penso se não seria mais seguro abandonar tudo e tentar recomeçar a vida em outro lugar.
Isso mesmo, já chego ao ponto de pensar em deixar minha terra natal por medo. Estou viva hoje por um milagre. Quantas outras chances eu terei se continuar aqui?
Passei o fim de semana com muita febre, angustiada e amedrontada. Eu que já montei os cavalos mais bravos desde criança, eu que já briguei na porrada com homem, eu que decidi morar sozinha e meter a cara na vida, me virar acreditando que tudo vai dar certo. Eu mesma. Passei o fim de semana pensando nas coisas que eu queria ter feito e deixei de fazer, nas pessoas que eu me afastei por mágoa mas ainda as amo, nos lugares que ainda quero conhecer, nos “eu te amo” que eu preciso dizer.
E um filme me passou pela cabeça. O filme da minha vida. E diante de uma experiência dessas, você começa a repensar suas prioridades e eu, sem dúvidas, não acho que rotina seja uma coisa bacana. Não acredito de jeito nenhum que uma pessoa tenha que viver a vida correndo atrás de grana, passando por cima de qualquer um para subir na vida. Não!
A cada dia que passa eu vejo a vida com mais simplicidade. A cada dia que passa eu admiro mais o que Jesus veio nos passar. Simplesmente amar e não fazer aos outros o que não quer que seja feito conosco. Assim, simplesmente assim, o mundo funcionaria na maior paz e harmonia.
Mas não aprendemos absolutamente nada. O ser humano é o único animal que tem que se proteger da sua própria espécie. É o único que mata por maldade, por ignorância, crueldade, sangue frio.
E todo esse texto é apenas o desabafo de uma jovem jornalista, cansada dessa realidade absurda, cansada de registrar diariamente, DIARIAMENTE, a morte de tantos jovens, tantas e tantas vitimas de assaltos e tanta, mas tanta falta de segurança nesse lugar pequeno e tão mal governado.
Não é só a violência que me incomoda não. Se eu tivesse levado um tiro pelas costas, quanto tempo demoraria para eu ser socorrida? E qual hospital público me atenderia rapidamente? Minha vida estaria salva com a saúde pública que temos? Eu não acredito nessa hipótese. Acho que eu, se não morresse na hora do crime, agonizaria muito antes de ser atendida por algum médico mal humorado, insatisfeito com seu salário e acostumado a ver tanta gente morrer todos os dias na frente dele. Eu seria apenas mais uma.
E toda essa bola de neve de “esculhambação” começa no que seria o básico para qualquer sociedade com o mínimo de civilidade: começa na educação. E qual a qualidade das nossas escolas públicas? Nem é preciso comentar.
E quero finalizar esse artigo, texto, desabafo, não reclamando. Já faço isso diariamente, reclamando por mim ou transcrevendo o que as pessoas (a grande maioria delas) dizem. Quero terminar agradecendo por estar viva. Passei o fim de semana adoentada, de cama, com o cotovelo, barriga e joelho machucados da queda, mas fui bem cuidada. Só tenho que agradecer por ser tão abençoada e por ter de novo a chance de fazer e dizer o que tenho vontade. Obrigada!
Thayanne Magalhães